quarta-feira, 2 de março de 2011

Reflexão a partir da crônica "Preciso de Alguém", de Caio Fernando Abreu



Uma ideia muito legal que participei foi a Roda de Leitura Virtual, onde um texto era enviado por email a um grupo de amigos, e era discutido sobre ele e seus assuntos relacionados. 
O primeiro texto foi "Preciso de Alguém", de Caio Fernando Abreu: http://www.cafeimpresso.com.br/?p=1073
E abaixo está o comentário que enviei aos amigos sobre o texto e afins. Lembrando que escrevo porque gosto. Não busco agradar e as pessoas não precisam concordar com o que penso.

Deixarei aqui minha reflexão sobre a crônica do adorável Caio Fernando Abreu, exagerada ou não, insensível ou não, negativa ou não, lá vai.
Talvez para quem me conhece, este discurso já é familiar, e por isso vou, mais uma vez, jogá-lo a discussão. Lindíssimo o texto de Caio F., que me fez pensar no sofrimento presente neste amor, sentimento que acreditam estar relacionado com a felicidade.

Existe uma busca a esse amor, a uma pessoa que irá nos "completar", nos fazer "felizes", nos tirar desta "solidão", em aspas mesmo porque em que instância estamos falando em completude, felicidade e solidão?
Uma busca construída socialmente, presente em várias gerações, que nos diz, direta ou indiretamente, que precisamos encontrar este alguém senão nossa vida não fará sentido ou, usando o termo já citado, não estaremos completo. A falta do algo/alguém que é exterior a nós em dados momentos nos dá a sensação de incompletude, tristeza, inquietação, cada uma em doses específicas, ou não. E lá vai terapia, momentos reflexivos, fossa, entre outros. Vejo a presença da dor antes mesmo de encontrar esta criatura tão sonhada e esperada.
Então você a encontra e fica tudo bem (????). A pessoa possui características e virtudes variadas e específicas que lhe chamam a atenção e lhe agrada. Até que ela comete um deslize, deslize este que pode ser exemplificado das formas mais diversas possíveis, mas está voltado a uma característica: algo que o atacou (seja com palavras ou atos), machucou os seus sentimentos, já que não era algo esperado por você, fugiu do seu campo estável. O seu amado(a), aquele que faltava para a sua vida estar "completa", aprontou uma com você. Ah, desse jeito não tem condições! Eu, que depositei o meu amor nele(a), minha confiança, expectativas e projeções futuras, foram todas em vão! A dor presente mais uma vez.
O mito da alma gêmea é onde mais causa dor e sofrimento pois é oriundo da ideia de que um nasceu para o outro, e que se não deu certo é porque você não encontrou, a sua cara metade, mozinho, bibelô, como queiram chamar. E ele(a) virá pode esperar/procurar, pode ter certeza que existe, estes e mais outros clichês. E haja procura, e vamos nos encontrando com um(a), com outro(a), conhecendo, vivendo relacionamentos, com o pensamento que dentre tantos você achará o seu amor, e uma vez achado você será feliz. Mas, por que acreditar nisto? Como foi que chegamos ao ponto de isto ser considerado uma verdade?
Uma das explicações pode ser porque a vida precisa de ilusões, senão ela se tornaria insuportável. A existência de um discurso e a crença que isto é bom faz as pessoas terem esperança. Mesmo que você passe anos procurando, dependente deste carinho-mor, chore, fique triste, sofra.
Mas calma aí, tem momentos bons no meio nisto tudo. E então você vai resgatando estas situações para provar, a si e aos outros, que nem tudo são espinhos. Por quê? Porque você deposita sua confiança neste discurso, que aliás, não estaria tão forte a tantos anos se não tivessem pessoas que acreditassem nele. E assim continuamos a produzir e reproduzir isto, com foco na felicidade, claro, já que é o que todos esperam conseguir. E vamos passar por tudo, por todas as dores possíveis, porque há algo que nos espera lá, a recompensa maior, a felicidade. E tudo valerá a pena! Tem certeza?
Por que depositar no outro a nossa felicidade? Por que esperar do outro algo que esperamos para nós? E por que nos entristecemos com atitudes do outro que são contrárias com o que queremos para nós? E ainda dizemos que o outro está errado. Tudo o que sai do nosso campo de controle ou que não atendem as nossas convicções é errado. Tudo não seria mais simples se as pessoas fossem exatamente do jeitinho que nós projetamos e queremos? Só que a tal da subejtividade do outro as vezes atrapalha as coisas... Ou não, vai ver a culpa é dele(a) mesmo!
É tudo um ciclo. O jogo pode até mudar mas as cartas serão sempre as mesmas. Não estou em nenhum momento me ausentando desta lógica, mas há algo nisso que me intriga e me inquieta: até que ponto isto movimenta, influencia e direciona as pessoas? O que nos faz depositar nossas perspectivas no outro? É uma norma que deve ser seguida porque só ela levará a tão estimada felicidade? Cadê as outras opções?
Haja dúvidas e contradições, e para finalizar este comentário, um trecho da própria crônica de Caio F.: "
Mas finjo de adulto, digo coisas falsamente sábias, faço caras sérias, responsáveis. Engano, mistifico. Disfarço esta sede de ti, meu amor que nunca veio - viria? virá? - e minto não, já não preciso."  Outra de Vinicius de Moraes "tristeza não tem fim, felicidade sim". E mais uma: duvide, questione, critique estes mecanismos que nos rodeiam. Reflita sempre!

Bom dia a todos!

2 comentários:

  1. Ah, sim, uma bela reflexão. E o texto do Caio Fernando Abreu é incível. Vale a pena ler o texto e a reflexão de Paty. Impagável.

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  2. Resumindo: refexão de gente feia e encalhada...
    brincadeira amiga, falando sério, é verdade só agora li o seu texto, e observei como é interessante o seu ponto de vista.

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